home
> manifeste-se >
dinheiro jogado fora
Dinheiro
jogado fora
Texto
enviando para a lista da Rede do 3° Setor em 19/08/2006,
selecionado pelo BSAG.
http://br.groups.yahoo.com/group/3setor
A ajuda humanitária internacional tem crescido anualmente,
mas não a um ritmo satisfatório, nem com a
eficiência necessária. Dois relatórios
produzidos recentemente mostram que, apesar do aumento do
volume de recursos, o que realmente chega aos países
em desenvolvimento não é tanto quanto se anuncia.
De acordo com o relatório Real Aid 2 (Ajuda Real),
produzido pela ONG britânica ActionAid e lançado
em julho, cerca de US$ 37 bilhões dos US$ 79 bilhões
de ajuda humanitária oferecidos em 2004 não
têm nenhum resultado para o desenvolvimento dos países
mais pobres do mundo. Ou seja, 46% dos recursos foram "ajuda-fantasma".
O montante é usado para pagar consultores e técnicos
cujo trabalho não é relevante e, algumas vezes,
é até mesmo prejudicial, apesar de muito bem-remunerado.
Nesse valor também estão incluídos
cancelamentos de dívidas, o que não é
considerado uma ajuda realmente produtiva, ainda que benéfica.
"Ao realizar esses estudos, a ActionAid está
preocupada em saber se a ajuda dada aos países pobres
realmente chega a quem precisa", afirma Alexandre Arrais,
coordenador do programa de educação da ONG
no Brasil.
Outro
estudo, feito pela Conferência das Nações
Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (Unctad),
também lançado em julho, mostra que boa parte
dos US$ 20 bilhões anunciados como ajuda humanitária,
na verdade, não passa de perdão de dívidas.
O número da Unctad exclui empréstimos de doadores
como a própria ONU, o Banco Mundial, o Fundo Monetário
Internacional e a União Européia. Essas exceções
justificam a discrepância com os números da
ONG britânica. O cancelamento de débitos, de
acordo com o relatório "The Least Developed
Countries Report 2006: Developing Productive Capacities",
não deixa de ser algo positivo, mas não representa
uma colaboração real para o país se
desenvolver.
"O
cancelamento da dívida é visto pela maioria
dos países doadores como uma forma de ajuda ao desenvolvimento,
o que está certo. Porém o não-pagamento
de um empréstimo, que é esquecido, não
tem nenhum impacto sobre novos recursos para o desenvolvimento",
afirmou no último encontro do G-8 o administrador
do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento
(Pnud), Kemal Dervis. O G-8 reúne os oito países
mais ricos do mundo.
Para
Caroline Sande Mukulira, diretora da ActionAid na África
do Sul, "é importante que o dinheiro dado como
ajuda por países ricos seja usado para ter o melhor
efeito. Não é preciso 'mais ajuda', mas sim
'melhor ajuda'".
Dinheiro
mal-gasto
O
Real Aid 2 é a segunda edição de um
estudo da ONG britânica sobre o tamanho da ajuda humanitária
em todo o mundo. O principal foco de suas críticas
é a contratação de assistência
técnica a preços muito altos. O relatório
atualiza e retoma alguns números expostos na primeira
edição, lançada em 2005.
No
ano passado, o relatório descobriu que apenas 40%
da cooperação era "real', ou seja, direcionada
para a redução da pobreza no país necessitado.
O restante era destinado a especialistas, geralmente vindos
dos países mais ricos do mundo.
Metade
dos recursos destinados ao Camboja, por exemplo, foi gasta
com 740 consultores internacionais. Os 50% restantes foram
gastos com serviços para 160 mil pessoas. Mais gente,
portanto, poderia ter sido ajudada, caso não houvesse
tanto gasto com especialistas. A primeira edição
do Real Aid se baseou em estudos de caso feitos no Camboja,
no Vietnã, em Uganda e na Etiópia, além
de análises de dados de diversos governos do Primeiro
Mundo. O levantamento de dados se refere a 2003.
Este
ano o relatório revela uma melhora nos gastos internacionais.
Desta vez, apenas 25% dos recursos foram gastos com "ajuda-fantasma"
de especialistas. O ano base é 2005 e, além
da consulta a dados governamentais, foram estudados projetos
em Gana, Tanzânia, Serra Leoa, Quênia e Camboja.
Se
em 2003 foram mal-gastos 42 bilhões de dólares,
no ano seguinte foram US$ 37 bilhões, cinco bilhões
a menos. O total de ajuda aumentou em US$ 10 bilhões
- de US$ 69 bi para US$ 79 bi -, o equivalente a 14%. Apesar
da diminuição do desperdício, a ActionAid
ainda acredita que há muito dinheiro sendo mal-empregado.
De
acordo com os cálculos do Real Aid 2, alguns países
apresentam níveis muito altos de ajuda-fantasma.
Portugal, por exemplo, lidera o ranking, com 82% de gastos
com consultores e perdão de dívidas. O índice
é 30 pontos percentuais maior do que o verificado
em 2003. A diferença se deve a perdões de
dívidas concedidos a Angola em 2004. Os EUA, maiores
doadores em termos absolutos, apresentaram índice
fantasma de 62%, contra 72% em 2003. Na outra ponta da tabela
está a Irlanda, que manteve os 13% de ajuda disfarçada,
de acordo com os critérios da ActionAid. Luxemburgo
vem logo atrás, com índice de 16%. A Suécia
tem 21%.
Consultorias
A
principal fonte de desperdício, de acordo com a ONG,
é a contratação de assistência
técnica. A organização acredita que
esse trabalho é caro (alguns consultores chegam a
ganhar US$ 200 mil por ano), ineficiente e, pior, "empurra"
soluções inadequadas à região
onde vão trabalhar, baseando-se no princípio
de que "o Ocidente sabe o que é melhor".
A
ActionAid calcula que só na contratação
de consultores foram gastos US$ 18,7 bilhões em 2004
-quase metade do valor calculado como fantasma e 15% do
total de ajuda. EUA, Alemanha, França e Japão,
os quatro maiores doadores em termos absolutos, respondem
por 75% dos recursos empregados em assistência técnica.
Citando
dados do Comitê de Assistência ao Desenvolvimento
da Organização para Cooperação
e Desenvolvimento Econômico (OCDE), a ActionAid afirma
que, na maioria dos casos, o custo com consultores vai muito
além do salário. É preciso pagar moradia,
escolas para filhos, viagens para casa e outras despesas.
"Esses são custos associados a consultores expatriados,
e não seriam necessários se consultores locais
fossem utilizados", critica o texto. Os maiores doadores
costumam dar preferência a funcionários nacionais,
mesmo que seu preço seja mais alto. Em Gana, a diária
paga a consultores inexperientes é maior do que o
salário mensal de funcionários locais, por
exemplo.
Os
especialistas, porém, são reconhecidamente
ineficientes. A OCDE diz não haver nenhuma correlação
entre emprego de assistência técnica e performance
econômica. A conclusão é citada no relatório.
Ao mesmo ponto chegou o governo cambojano, após ver
US$ 6,5 milhões sendo gastos para dar-lhe mais capacidade
de gerência econômica, com pagamentos de US$
200 mil por ano a consultores. De acordo com as autoridades,
a capacidade construída "era improvável
de ser usada e poderia ter apenas um impacto limitado".
A
ActionAid ainda critica o uso político da assistência
técnica, que muitas vezes reforça condições
de empréstimo feitas por financiadores internacionais
como o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional
(FMI). Exemplos não faltam. No Vietnã, os
consultores recomendaram a liberalização do
mercado, a privatização do serviço
de abastecimento de água em Ruanda e uma reforma
no setor de energia em Bangladesh.
Essas
soluções nem sempre são as melhores
para o país, critica a ONG. A Tanzânia, por
exemplo, privatizou a companhia de águas de sua maior
cidade, aconselhada por consultores britânicos. O
resultado veio dois anos depois, quando dois milhões
de pessoas de Dar es Salaam ficaram sem água. O mesmo
país africano adotou um sistema de agricultura irrigada
bastante empregado no Japão, deixando de lado técnicas
tradicionais. A "dica" foi dada pela agência
de cooperação japonesa. O custo do novo modelo,
porém, era alto demais para os agricultores tanzanianos.
Atualmente, são poucos os que continuam a usar o
sistema. O investimento na infra-estrutura de irrigação,
portanto, foi jogado fora.
De
acordo com Alexandre Arrais, do escritório brasileiro
da ActionAid, o principal problema dos consultores é
não dar atenção aos conhecimentos tradicionais
das comunidades onde irão trabalhar. "É
preciso ouvir as pessoas e suas organizações
em nível local, pois são eles quem tem o conhecimento.
Fazê-las participar do processo, para sentir que é
um processo seu e não imposto por outros que sequer
vivem ali. Não basta que um técnico elabore
um plano em um gabinete, sem consultar a comunidade sobre
o que é prioritário para ela. É também
preciso entender qual seria a forma mais sustentável
e provável que faça com que as mudanças
sejam incorporadas de forma efetiva pelas pessoas".
O
RealAid 2 não traz números relativos à
América Latina, mas Arrais afirma que 70% da ajuda
de governos de países ricos é aplicada em
assistência técnica em países como Brasil,
Uruguai, Argentina, Paraguai e Chile.
Outros
componentes
O
relatório cita outros itens responsáveis pelos
gastos-fantasmas. Um deles são alvos mal-construídos.
Ou seja, há muito dinheiro indo para quem não
precisa tanto. De acordo com o Real Aid 2, há US$
6,9 bilhões sendo investidos em ações
que visam mais à política externa dos doadores
do que à necessidade real dos receptores. O montante
equivale a 8,7% da ajuda humanitária concedida em
2004.
O
cancelamento de dívidas, por sua vez, respondeu por
US$ 5,7 bilhões da ajuda humanitária, o equivalente
a 7% do total investido. Outros US$ 8,1 bilhões são
desperdiçados em ações mal-coordenadas,
nas quais doadores repassam recursos para as mesmas funções
desnecessariamente (10%). Há ainda custos de US$
2,1 bilhões com a recepção de imigrantes
(3%), colocados na rubrica "ajuda internacional",
e perdas da ordem de US$ 70 milhões em despesas administrativas
(0,1%).
Valores
superestimados
Quem
também critica os países doadores de dinheiro
para ajuda humanitária é a Unctad. O relatório
"Países Menos Desenvolvidos 2006: Desenvolvendo
Capacidades Produtivas" faz críticas semelhantes
às da ActionAid.
Dados
mostram que 29% dos recursos doados entre 2002 e 2004, na
verdade, se referiam a perdões de dívidas
ou socorro em situações de catástrofe.
O percentual de ajuda por cancelamento de débitos
dobrou em dez anos. Em 1992-94, representava 8,3% do total
de recursos doados. Já no período 2002-04,
passou a 17,8%.
O
estudo também revela o aumento no volume de recursos
destinados a países em desenvolvimento, porém
critica sua má distribuição. Um terço
do incremento foi para apenas dois países: Afeganistão
e República Democrática do Congo. O Afeganistão
ainda está sob uma ocupação liderada
por norte-americanos e ingleses, iniciada em 2002, como
resposta aos atentados de 11 de setembro de 2001. E o país
africano saiu recentemente de uma longa guerra civil. Esses
fatos podem justificar o desequilíbrio na divisão
de recursos.
Mesmo
com o perdão de parte das dívidas, o endividamento
não deixou de crescer. O débito aumentou 3%,
indo de US$ 158 bilhões para US$ 163 bilhões
no período. Bangladesh, atualmente, é o maior
devedor entre os 50 países mais pobres do mundo,
com saldo negativo de US$ 20 bilhões.
O
estudo também mostra que o destino da ajuda internacional
tem mudado. Se, entre 1992 e 1994, iniciativas de melhoria
de infra-estrutura e fomento à produção
consumiam 48% das doações, o percentual caiu
pela metade de 2002 a 2004. Os principais alvos, hoje em
dia, são programas de saúde e educação,
que de 21%, em 1992-94, passaram a representar 32%, em 2002-04.
Críticas
As
críticas da ActionAid não passaram em branco.
Alguns governos manifestaram publicamente contrariedade
ao relatório desde sua primeira edição.
Tanto que a organização chegou a mudar sua
metodologia de cálculo da primeira para a segunda
edição. Ainda assim, a entidade afirmou que
as possíveis distorções se devem à
falta de transparência dos doadores oficiais em relação
a suas ações de cooperação internacional.
O
Departamento de Desenvolvimento Internacional do Reino Unido
(Diru) questionou as conclusões do relatório.
Segundo o estudo, o Reino Unido apresenta um nível
médio de ajuda real. O órgão oficial
afirma que gasta apenas 5% de seu orçamento com consultores
e não 12%, como afirma a ONG. A ActionAid rebate
dizendo que os dados foram encontrados no próprio
site da instituição e que os 5% alegados pelo
Diru representam apenas gastos de curto prazo com consultoria.
O
governo britânico também questiona as críticas
ao uso de consultores internacionais em seus projetos e
a não contabilidade de perdão de dívidas
como ajuda humanitária. "A defesa da ActionAid
em relação a perdão de dívidas
e consultas de especialistas como não sendo ajuda
real é absurda. Ambos demonstram resultados reais",
afirmou em nota oficial Hilary Benn, secretário de
Estado britânico para o Desenvolvimento Internacional.
O
Diru diz ainda que paga os preços de mercado a consultores
e que só os contrata quando necessário. "No
que eles decidem gastar seus pagamentos é um problema
individual", opina Benn. "O pagamento só
é feito quando o trabalho estiver pronto, e toda
tarefa orçada em mais de 93 mil libras é escolhida
mediante concorrência internacional". E cita
uma série de projetos com apoio britânico que
dão certo: reflorestamento de Granada, teste de sementes
resistentes à seca na Índia e o aumento do
orçamento do governo de Ruanda em 40%.
Benn
chega mesmo a ironizar a ONG de seu país: "Dado
que a ActionAid é uma das receptoras de financiamento
para assistência técnica - como as 20 milhões
de libras contratadas para ajudar a reduzir a contaminação
e o impacto da aids na África - ela considera esse
financiamento como sendo jogado fora? Nós não".
A
entidade afirma que desconsidera o perdão de dívida
como ajuda humanitária por acreditar que a cooperação
deve ser algo extra e capaz de injetar recursos na economia
local. Diz, porém, acreditar em benefícios
de cancelamento de dívidas e afirma que quer apenas
evitar que doadores pareçam mais generosos do que
realmente são. Esse posicionamento, afirma em resposta
ao governo britânico, "está alinhado ao
Consenso de Monterrey sobre Financiamento para o Desenvolvimento,
assinado em 2002".
O
governo irlandês, por outro lado, deu boas-vindas
ao relatório. O estudo, afinal, elogia a postura
da ilha vizinha da Inglaterra.
Soluções
De
acordo com a ActionAid, para que a assistência técnica
seja real, é preciso seguir quatro princípios:
colocar os receptores de ajuda no comando dos projetos,
deixá-los escolher o melhor caminho para seu desenvolvimento,
melhorar a prestação de contas entre doadores
e receptores e respeitar a especificidade de cada país
e região. "Isso significa que os países
pobres devem começar a ter responsabilidade de definir
suas necessidades e estratégias de desenvolvimento".
A
ONG recomenda ainda que seja montada uma rede de observadores,
composta pelo Parlamento local, por organizações
da sociedade civil e meios de comunicação,
para vigiar a execução de projetos. "É
preciso, principalmente, promover mecanismos democráticos
com critérios de desenvolvimento a partir dos diagnósticos
feitos pelos próprios países que vão
receber o recurso, envolvendo a sociedade civil e os movimentos
sociais", conclui Arrais.
Marcelo
Medeiros
[voltar
para manifeste-se] |
|
|