Polêmica
marca aprovação da CPI das ONGs
Rodrigo
Zavala
http://www.gife.org.br/redegifeonline_noticias.php?codigo=7537&tamanhodetela=2&tipo=ie
Texto
enviando para a lista da Rede do 3° Setor em 26/03/2007,
selecionado pelo BSAG.
http://br.groups.yahoo.com/group/3setor
Os partidos de oposição
ao governo no Senado conseguiram instalar, no último
dia 15, uma Comissão Parlamentar de Inquérito
(CPI) para investigar os repasses de dinheiro público
feitos para organizações não-governamentais.
Conhecida como CPI das ONGs, a comissão tem sido
questionada por uma série de organizações
sociais, pois, segundo elas, pode levar a uma criminalização
generalista das entidades.
O senador Heráclito Fortes (PFL-PI),
que protocolou o pedido na Mesa Diretora, defende a CPI
porque vê nela um instrumento rápido para
apurar "irregularidades que têm sido apontadas
pela imprensa e pelo TCU (Tribunal de Contas da União)",
e para propor novas normas ao setor. "A situação
hoje é de total descontrole em todo o processo,
da escolha das entidades, à prestação
de contas, passando pela execução dos projetos",
critica.
As discussões sobre a criação
da comissão começaram no final do ano passado,
quando a ONG Contas Abertas fez uma denúncia ao
jornal Folha de S.Paulo. Na reportagem, veiculada no dia
17 de setembro, a organização apontava que
a ONG UniTrabalho - que tinha como colaborador o ex-petista
Jorge Lorenzetti - teria recebido mais de R$ 18 milhões
da União desde o início do governo Luiz
Inácio Lula da Silva.
Na época, também pretendia-se
incluir nas investigações a denúncia
de que a Petrobras teria repassado pelo menos R$ 31 milhões
para ONGs ligadas ao PT. "A idéia não
é promover nenhuma caça às bruxas,
mas fazer um trabalho que ajude a preservar as entidades
que têm prestado relevantes serviços ao País,
das que apenas se aproveitam do dinheiro público",
explica o senador.
Críticas - A Associação
Brasileira de Organizações Não Governamentais
(Abong), no entanto, questiona a criação
da CPI. Em nota divulgada ao redeGIFE, a Abong levanta
alguns pontos. O primeiro refere-se "ao estranho
recorte de tempo abordado pela CPI, a qual propõe
investigar convênios do governo federal com ONGs
apenas a partir de 2003". Segundo o Tribunal de Contas
da União, as irregularidades no repasse começaram
em 1999, ainda no governo de Fernando Henrique Cardoso
(PSDB), quando o PFL era partido governista, hoje oposição.
O documento também cita "a
criminalização das entidades, uma vez que
se propõe a tratar em uma CPI questões relativas
a irregularidades, para as quais o TCU tem instrumentos
cabíveis de ajuste e que não necessariamente
relacionam-se à má fé no trato do
dinheiro público". Nesse sentido, acusa a
CPI de ser generalista, pois as irregularidades foram
apontadas em 28 convênios realizados entre o governo
e 10 ONGs, distante do universo de quase 300 mil existentes
no país.
Para o secretário-geral do GIFE,
Fernando Rossetti, esses casos não devem ser encarados
como regra, já que não refletem o diverso
trabalho realizado pelas organizações sociais.
"O corruptor nesse caso é o Estado, que criou
canais para que isso ocorresse", critica.
O Estado, na visão de Rossetti,
deve criar regras e acordos de como prestar contas de
maneira mais transparente possível, porém,
sem dificultar o trabalho das organizações
sociais. "Quando o Estado se mete a controlar, ele
burocratiza o sistema. Isso poderia trazer conseqüências
para o trabalho de pequenas entidades, que se tornariam
inviáveis sem um amplo respaldo jurídico",
afirmou.
Soluções - Uma das formas
de sanar o problema é levantada pelo advogado,
especialista em legislação do terceiro setor,
Eduardo Szazi, que defende a criação de
um cadastro compulsório e nacional de ONGs que
recebem recursos públicos. "O objetivo é
tornar transparentes as informações. Hoje,
apenas as Oscips (Organizações da Sociedade
Civil de Interesse Público) estão obrigadas
a publicarem suas movimentações financeiras",
afirmou Szazi.
O Estado de S. Paulo deu o primeiro passo
no tema. No dia 08 de dezembro de 2006, frente à
avalanche de denúncias, o então governador
Cláudio Lembo (PFL) assinou um decreto que regulamenta
a atividade de ONGs e Oscips que atuam junto ao Estado.
O documento obriga as organizações
a encaminhar, todos os meses, documentos que comprovem
a aplicação dos recursos recebidos do Estado
à Secretaria da Fazenda, além de submeter
as entidades à fiscalização do governo.
Lembo disse, na época, que as auditorias
nas instituições já eram feitas,
mas ressaltou que essas fiscalizações devem
mudar. "Agora, nós vamos fazer auditoria e
aqueles que a gente sentir qualquer problema de ordem
administrativa ou financeira, a gente susta o pagamento,
porque o pagamento agora é centralizado",
disse ele, em evento realizado na Secretaria da Administração
Penitenciária (SAP) no dia 07 de dezembro.
Se as ONGs ou Oscips não cumprirem
o estabelecido no decreto, estarão sujeitas à
suspensão de recursos do Estado.
Próximos passos - A CPI das ONGs
já foi aprovada, mas não instalada. Faltam
cumprir algumas etapas, o que deve ocorrer até
a próxima semana. Em primeiro lugar, os líderes
dos partidos têm que indicar os seus representantes
de acordo com a seguinte proporcionalidade: PMDB - 3,
PFL- 2, PSDB - 2, PT - 1, PTB - 1, PDT - 1, PR - 1. São
onze titulares e sete suplentes, assim divididos: PMDB
- 2, PFL - 1, PSDB - 1, PT - 1, outros partidos - 2.
"Minha idéia é a de
que ela fuja dos depoimentos longuíssimos e dos
holofotes da mídia. Além, é claro,
da simples disputa ideológica ou político-partidária.
A CPI tem poderes para requisitar documentos, cruzar informações,
produzir provas. E depois, claro, apresentar um conjunto
de propostas. O importante, agora, é que haja uma
mobilização não apenas para tirá-las
do papel, mas para modernizarmos a legislação,
evitando os grandes ralos que hoje existem e separando
o joio do trigo", defende senador Heráclito
Fortes.