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Publica Digital e Redes Colaborativas - Debate em Salvador
Caros, segue uma síntese de algumas
questões relevantes que foram discutidas no Seminário
da TV Pública Digital em Salvador de 23 a 25/08.
Participaram dos 3 dias de intenso debate, com transmissão
ao vivo pela internet, produtores independentes, diretores
de TV, professores universitários, cineastas, Ongs,
gestores, o ministro das Comunicações da
Casa Civil Franklin Martins, o secretário do audiovisual
Orlando Senna, representantes das TVs universitárias,
comunitárias, radialistas, jornalistas, empresários
do audiovisual, enfim um grupo heterogêneo e diverso.
1) Em todas as mesas se defendeu que a
TV Pública digital deve se constituir como uma
rede horizontal, e uma rede colaborativa aberta, uma "rede
de redes", descentralizada. O modelo de gestão
foi o mais discutido, pois ainda está se configurando,
mesmo que a proposta seja que a TV Pública entre
no ar em dezembro. A idéia de uma rede de redes
é decisiva, pois mesmo que inicialmente tenha como
referência a TV Brasil (fusão da TVE com
a Radiobrás) a proposta é criar as bases
para uma rede "horizontal" reunindo mais de
200 emissoras de TV dos sistemas público, comunitárias,
universitárias, estatais, privadas com fins público,
enfim tendo como horizonte um pool dessas redes super
heterogêneas, com troca de programas e abrindo para
a produção independente (quem produz e não
tem emissora para exibir). Tal fato é inédito
no Brasil. Nunca se pensou uma rede com tal alcance e
diversidade.
2) A base tecnológica será
feita a princípio a partir da fusão da atual
estrutura da TVE com a Radiobrás e mais uma base
em SP. É essa a base material, o ponto de partida,
a TV Brasil, que será seguida imediatamente pela
criação de outros canais públicos,
com gestão pública: os canais da cultura,
da cidadania, da educação e os canais estatais
(TV senado, Câmara,etc.). Ou seja, a rede pública
que é uma malha enorme e diversa vai ser articulada
nessa "rede de redes". A TV Brasil na nova configuração
terá um novo diretor e um conselho (com participantes
da sociedade civil), o que já causa especulações
e polêmica, questão menor, no meu entender.
3) O melhor do seminário. Muita
gente pensando a questão das redes colaborativas,
da descentralização, da TV colaborativa,
como a garotada que apresentou o site Fiz (tipo You Tube)
que agrega conteúdos livres e a aceitação
desse modelo das redes colaborativas como o horizonte
natural da TV Pública digital brasileira pelos
jovens gestores do governo (Minc e SAV).
4) Também a necessidade de uma
Internet Pública apareceu fortemente. Essa também
foi parte da minha argumentação nos debates,
para combater uma Mídia-Estado (que se porta como
Estado) não precisamos de um Estado nem TV centralizadora,
mas aumentar a produtividade social, ou seja fortalecer
as redes existentes e incluir novas redes nos sistemas
de Comunicação. Também os grupos
que estão fora da TV não querem mais simplesmente
ser "representados" na TV (periferias, p.ex.)
querem um canal de TV, querem fazer TV, o que já
é possível com a TV IP na internet e será
na TV aberta, com as multi programações
trazidas com o digital.
5) Também recorrente, a análise
de que temos uma Mídia-Estado privada que "vende
estabilidade política", sua moeda de troca
para defender seus interesses. Levantou-se a questão
e a importância da rede blogueira hoje na internet,
como contra-discurso. Também defendi no seminário
o que chamo da produção "doméstico-industrial",
em que a produção "amadora" ou
"não-profissional" ganha relevância
e desmistifica a idéia da exclusividade da produção
audiovisual e midiática feita por "profissionais".
É só olhar para o You Tube, Wikipedia, redes
colaborativas, etc. Falou-se o tempo todo da necessidade
da TV Pública digital já entrar com um braço
na Internet, convergindo TV e Internet públicas.
6) Defesa dos conteúdos abertos,
sem bloqueio para gravar. O Jornal O Globo já saiu
com texto na página dos Editorias, de domingo,
dizendo que "TV Digital ameaça conteúdo
brasileiro", fazendo campanha para impedir que o
telespectador grave os programas!!! O que é um
atraso em termos de democracia e da livre produção
e circulação do conhecimento.
7) Veremos a grande mídia detonar
o projeto da TV Pública Digital como fez com a
Ancinav e com as políticas públicas que
poderiam abrir os sistemas de comunicação
para uso comum, público e com horizonte de universalização
desses serviços? Afinal, a mídia e os produtores
de conteúdo somos nós, no pós digital
e internet. O que está em jogo é um pensamento
inédito do Brasil do que é Público.
É a possibilidade de tirar do sucateamento as TVs
públicas, estatais, comunitárias, universitárias
e abrir novos espaços para produção
independente, para o cinema brasileiro e para novas linguagens.
8) Aliás, essa é um dos
grandes acertos do processo, presente na fala de Orlando
Senna. A decisão que 80% da produção
da TV Pública Digital será feita de fora
(não pelas próprias emissoras). Ou seja,
a TV Pública digital vai abrir Editais públicos
para novos programas de TV, numa proposta de renovação
inédita da programação. Provavelmente
não será de imediato. Vai começar
operando com um pool de programações regionais,
vindo do Brasil todo e abrindo para as novas programações.
9) Inovação, experimentação,
sair da "chatice", sair dos dualismo ou é
cultural ou comercial, ou é chata sem audiência
ou de entretenimento, ou é política ou lúdica,
essa também foi uma das questões mais discutidas.
Novas mídias, games, interatividade, novas linguagens,
estiveram entre as
diferentes falas e alguns projetos já existentes
nessa linha foram levados para debate. A questão
de formar e construir audiências, aos invés
de "vender audiência" como faz o sistema
de TV privada que naturaliza a audiência, como se
fosse um 'bolo' natural e imutável, foi também
tema do pessoal que trabalha com estudos de recepção.
Enfim, um panorama animador, apesar das
grandes dificuldades de se operacionalizar tudo isso.
Se mais alguém da lista esteve no Seminário,
outras impressões são bem vindas.
Um abraço,
Ivana Bentes
Escola de Comunicação da UFRJ