Operações
de Guerra em favelas produzem efeitos ilusórios
e sofrimento que poderia ser evitado
(03/07/2007)
Leia,
a seguir, íntegra do texto escrito por Luiz Eduardo
Soares para o Blog da Semana da Revista Época,
publicado em 1º de julho de 2007.
A
violência no Rio de Janeiro vem alcançando
patamares alarmantes há muitos anos. Em 2006, houve
7 652 crimes letais -50 por 100 mil habitantes, ou seja,
o dobro da média nacional. Portanto, o atual governo
do Estado e os gestores atuais da segurança -profissionais
reconhecidamente honrados, que merecem todo o nosso respeito-
não podem ser responsabilizados pelo quadro dramático
que herdaram. Entretanto, os últimos acontecimentos
no complexo do Alemão demonstram que as autoridades
não aprenderam com os erros de seus antecessores:
têm feito mais do mesmo; têm adotado os mesmos
métodos, apenas elevando a intensidade e a escala
das incursões bélicas às favelas.
De
2003 a 2006, 4 329 pessoas foram mortas em ações
policiais - mais de mil por ano. Pesquisas sobre os 1.195
casos de 2003 mostram que cerca de 65% daquelas ocorrências
não passaram de execuções. São
dados que denotam verdadeiro genocídio. A história
recente do Rio deixa muito claro que a pena de morte está
instalada, na prática, e tem sido sistematicamente
aplicada contra jovens pobres e negros.
Por
outro lado, o tráfico de drogas tem imposto verdadeiro
despotismo às comunidades pobres, revogando, em
seus territórios, a vigência do Estado de
Direito Democrático. E não é segredo
que segmentos policiais são sócios do crime,
negociando armas e drogas. Além disso, sabe-se
que não há só o varejo das drogas,
o qual depende de lavagem de dinheiro e das redes clandestinas
do crime organizado, cuja dinâmica se alimenta da
corrupção e envolve outros grupos sociais,
residentes nas áreas nobres das cidades.
A
gravidade da situação se expõe, ainda
com mais nitidez, quando observamos que há 170
mil solicitações de laudos periciais não
atendidas; a polícia civil investiga com êxito
apenas 1,5% dos homicídios dolosos; e que o salário
base de um soldado da PM não ultrapassa R$ 800,00.
Para completar, registre-se que cabe à segurança
privada financiar a segurança pública, mediante
recrutamento ilegal de policiais para o segundo emprego.
Esse artifício mantém a demanda por salários
reprimida e obriga o Estado a conviver com a segurança
privada informal, mesmo sabendo que do informal muitas
vezes se passa para o criminal. É da omissão
interessada do Estado que nascem as milícias, outro
fenômeno assustador, na contramão da legalidade
Constitucional.
Nesse
contexto, invasões policiais em operações
de guerra, nas favelas, constituem um equívoco
perigoso, de conseqüências trágicas,
por cinco razões: (1) morrem inocentes, inclusive
policiais; (2) os suspeitos mortos são substituídos
como peças de reposição e o processo
criminoso se reproduz, crescentemente alimentado pelo
ódio, cultivado por abusos e humilhações
de que são vítimas as comunidades. Depois
de ocupadas pela força militar, as favelas são
novamente abandonadas, sem investimentos sociais, e nada
muda; (3) violações à legalidade
são cometidas e jamais previstas, controladas ou
apuradas, porque a lógica da guerra -e sua ética
perversa- tudo justifica. É extremamente preocupante,
nesse sentido, a proibição, por parte da
secretaria de segurança, de que perito da OAB acompanhe
as autópsias, assim como suscita legítima
indignação a falta de providências
para que as denúncias da comunidade sejam apuradas
com transparência, o que só se efetivaria
com a participação de órgãos
externos; (4) as reformas profundas das polícias
são relegadas a segundo plano, criando-se a ilusão
de que será possível construir a paz com
a morte de traficantes varejistas, sem que a máquina
de morte e corrupção, instalada no seio
das instituições policiais, seja desmontada,
e sem que os policiais honestos, que constituem a maioria,
sejam, afinal, valorizados; (5) trai-se o fundamento mesmo
da segurança pública, cujo objetivo é
proteger, acima de tudo, a vida, inclusive e sobretudo
daqueles que estão mais vulneráveis aos
ricos, isto é, sobretudo dos moradores das favelas.
Em outras palavras, as comunidades deveriam ser as destinatárias
primeiras dos serviços de segurança pública
prestados pelo Estado, nas áreas mais pobres. Nada
justificaria, portanto, sacrificar moradores inocentes
em nome de qualquer outra finalidade. Não há
finalidade maior que a vida, sobretudo dos que estão
diretamente envolvidos no campo real dos confrontos. Moradores
de favelas não podem tornar-se baixas "naturais"
de confrontos. Suas vidas não podem ser consideradas
meios para que se alcancem outros fins, por mais elevados
que sejam. Nenhuma tática que sacrifique a segurança
dos moradores pode ser tolerada.
Quando
uma empregada doméstica é barbaramente agredida
por jovens de classe média, que se revelam criminosos
brutais, parece que o mesmo padrão se repete: os
mais pobres não têm alma, não participam
da mesma humanidade, reduzem-se a objetos e instrumentos
de exploração, prazer ou destruição
lúdica. Que mensagem se pode extrair desse paralelismo?
O Estado trata os de baixo com desdém por suas
vidas? A lógica não é análoga?
Isso não mostra que há algo mais profundo
no espírito de nosso tempo, algo que revela a internalização
e a naturalização de nossas desigualdades?
Considerando
esse conjunto de questões, acho que devemos conclamar
o governo do Estado do Rio a rever sua política
de segurança, a ouvir o clamor das comunidades
envolvidas e a autorizar o acesso aos exames periciais
de técnicos externos. Diante de conjuntura tão
dramática, creio ser dever da cidadania dirigir
uma convocação a toda a sociedade e a todas
as forças políticas, independentemente de
quaisquer diferenças menores, em nome da democracia
e da civilização. Deveríamos propor
ao país a celebração do Pacto Republicano
em Defesa da Vida, sugerindo que nossa referência
comum seja o plano de segurança do primeiro governo
Lula, que previa a criação do Sistema Único
de Segurança Pública, além de expressivos
investimentos em políticas preventivas. Ali temos
as bases já testadas para o consenso possível.
Saibamos encontrar humildade e grandeza para superar divergências
e construir o entendimento, porque o que está em
jogo é a vida, é a democracia, é
a legitimidade do sentido de justiça para os brasileiros
mais pobres.