Um
cortejo com mais de três mil pessoas marcou as comemorações
na noite de ontem (18 de junho), em São Luis, do
registro do Tambor de Crioula no Livro das Formas de Expressão
do Patrimônio Cultural Imaterial brasileiro. Praticada
no Maranhão desde a época da escravidão,
é o décimo primeiro bem cultural de natureza
imaterial inscrito em um dos quatro Livros de Registro
do Programa Nacional do Patrimônio Imaterial. Já
haviam sido registrados: Ofício das Paneleiras
de Goiabeiras (ES), Arte Kusiwa dos Wajãpi (AP),
Círio de Nazaré (PA), Samba de Roda no Recôncavo
Baiano (BA), Viola-de-Cocho (MT/MS), Ofício das
Baianas de Acarajé (BA), Jongo no Sudeste (RJ),
Cachoeira de Iauaretê (AM), Feira de Caruaru (PE)
e Frevo (PE).
Depois da reunião do Conselho Consultivo do Patrimônio
Cultural, do Instituto do Patrimônio Histórico
e Artístico Nacional (Iphan) - que se estendeu
por toda tarde no terreiro mais antigo da capital maranhense,
a Casa das Minas – o ministro da Cultura, Gilberto
Gil, anunciou o registro para os milhares de brincantes
que tomaram as ruas do centro de São Luis com seus
tambores e coreiras.
Acompanhado do presidente do Iphan, Luiz Fernando de Almeida,
do governador do Maranhão, Jackson Lago, da prefeita
em exercício, Sandra Torres, dos representantes
do Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural e
dos brincantes, o ministro Gil seguiu a procissão
que levou o padroeiro da manifestação, São
Benedito – santo protetor dos negros -, de volta
à sua capela, no centro da cidade. Em seguida,
participou da solenidade de celebração do
registro, na Casa do Tambor de Crioula.
Plano de Salvaguarda
O ministro da Cultura afirmou que o registro foi a primeira
ação de um conjunto de políticas
que o Governo Federal pretende implementar para a preservação
do bem cultural. “Um Plano de Salvaguarda do Tambor
de Crioula deverá contemplar políticas que
assegurem a transmissão dos saberes, o estímulo
a novos compositores e o apoio ao registro fonográfico
e audiovisual”, disse Gil, que também destacou
a necessidade de se investir na difusão e no incentivo
de pesquisas sobre a manifestação.
Em um discurso emocionado, alertou para a importância
de se envolver jovens e crianças nas ações
de preservação. Gil também aproveitou
para mobilizar os brincantes e as três esferas governamentais
(federal, estadual e municipal). “Não é
o registro que vai garantir a sobrevivência do Tambor
de Crioula, mas é a responsabilidade de todos nós”,
convocou.
O presidente do Iphan, por sua vez, explicou que o registro
do Tambor de Crioula se insere numa ação
de mapeamento, inventário e valorização
das várias formas tradicionais do samba existentes
no Brasil. “Falo da diversidade que abarca o Samba
de Roda baiano, o Partido Alto e o Samba de Terreiro do
Rio de Janeiro, o Samba Rural paulista e o Coco do Nordeste”,
disse Luiz Fernando, que lembrou da expedição
folcórica empreendida pelo poeta Mário de
Andrade, nos Anos 30, quando foi catalogada a manifestação
maranhense.
Para o governador Jackson Lago, o registro do Tambor de
Crioula foi muito importante para a consolidação
cultural do estado. “O título representa
para o Maranhão um momento honroso. Faz nos dar
conta das nossas origens, da nossa história e da
nossa força cultural”, declarou.
Diversos mestres do Tambor destacaram a importância
do registro para a sustentabilidade dos grupos e das comunidades.
“O registro do Tambor veio para melhorar as condições
do grupo e divulgar ele em todo Brasil”, disse o
mestre Amaral. Já o mestre Felipe, do Tambor de
Crioula União de São Benedito, lembrou da
função social que o Tambor exerce na vida
dos jovens: “hoje temos muitas crianças carentes
no grupo e o tambor tira essas crianças da marginalidade”.
Ele, que é um dos mestres mais antigos da região,
destaca orgulho que “essa é uma dança
que todo o Brasil deveria conhecer”.
Neste ano celebra-se os 70 anos de existência do
Iphan e de realização da expedição
folclórica empreendida pelo poeta Mário
de Andrade, quando foi catalogado o Tambor de Crioula
do Maranhão e outras expressões populares.
“Naquele momento, junto com a criação
do Iphan, estavam sendo lançadas as bases de uma
política de preservação que reconhece
a riqueza, a dimensão, a complexidade e a diversidade
do patrimônio cultural brasileiro”, declarou
o presidente do Iphan.
Luiz Fernando também ressaltou a importância
de reconhecer a beleza, a força, o valor e a importância
das pessoas que preservam a tradição do
Tambor de Crioula, uma manifestação da cultura
popular maranhense que envolve dança circular,
canto e percussão de três tambores.
Para a prefeita Sandra Torres, a expressão cultural
é um dos mais fortes exemplos da criatividade e
da resistência dos descendentes de escravos no Maranhão.
“A cultura é o viés mais forte para
erguer a auto-estima de um povo”, ressaltou.
Tambor de Crioula
Envolvendo dança circular, canto e percussão,
o Tambor de Crioula tem sua origem ligada à resistência
cultural dos negros e de seus descendentes. Seu reconhecimento
veio se constituindo aos poucos.
No dia 6 de setembro, celebra-se a data dessa que é
uma das mais belas manifestações culturais
do Maranhão e que, desde o ano passado, passou
a contar com o seu memorial, a Casa do Tambor de Crioula,
instalada em uma antiga fábrica no centro de São
Luís.
Atualmente, no Maranhão, vem sendo apropriado por
grupos distintos e praticado por pessoas da classe média,
estudantes, artistas e intelectuais. Existem mais de sessenta
grupos de Tambor de Crioula catalogados no estado.
(Texto:
Marcelo Lucena)
(Edição: Carol Lobo)
(Fotos: Nanan Catalão)
(Comunicação Social/MinC)
[voltar
para cultura afro-brasileira]