Antologias
afro-brasileiras: memória e resistência estética
A produção literária afro-brasileira
afirma sua identidade negra com estética e temática
próprias.
Marcus
Vinicius Bonfim
Texto
enviando para a lista da Rede do 3° Setor em 15/04/2007
http://br.groups.yahoo.com/group/3setor
Seguindo o caminho da criação
literária negra no Brasil, Cadernos Negros chega
ao trigésimo ano com a publicação
de sua 30ª edição. A publicação
é fruto dos esforços de militantes negros,
poetas, engajados na produção de uma antologia
literária, de forma cooperativa em todas as etapas
de elaboração e seleção dos
conteúdos e, sobretudo, arcando com os custos de
impressão.
No
percurso literário brasileiro, vários foram
os autores negros que, a despeito dos preconceitos e esforços
de "branqueamento" alcançaram a consagração
e hoje são estudados em todos os bancos de colégios
brasileiros e em várias universidades de todo o
mundo.
Desde
1859, a militância negra no Brasil marca presença
na literatura.
Escrito pelo advogado abolicionista, poeta e jornalista
afro-brasileiro Luiz Gama (1830-1925), o poema A bodarrada
é o primeiro registro literário conhecido
que assume a identidade negra, que ironiza e se impõe
frente à sociedade da época. O autor, que
chegou a ser vendido como escravo, anos mais tarde, notabilizou-se
pela ampla defesa dos direitos dos cidadãos negros
ainda ilegalmente escravizados.
O
principal simbolista brasileiro, Cruz e Sousa (1861-1896),
durante muito tempo, foi considerado um negro que havia
negado suas origens, dada a sofisticação
da escola literária que ajudou a implementar no
Brasil. Tal visão explica-se pelo objetivo não
declarado de escamotear o aspecto visceralmente negro
de sua obra, que atinge o ápice com o poema em
prosa Emparedado, publicado no livro Evocações.
Cruz e Souza enfrentou os preconceitos raciais da época
e traduziu, em poesia e prosa, sua luta e sofrimento no
embate contra a opressão que o vitimou, levando-o
a uma vida difícil, encerrada muito cedo.
Passam-se anos, e chegamos a Machado de
Assis (1839-1908), que a historiografia nacional há
anos tenta "clarear". Suas obras-primas Memórias
Póstumas de Brás Cubas, Quincas Borba e
Dom Casmurro apresentam um realismo à brasileira
e uma crítica social profunda, porém sutil.
O fundador da Academia Brasileira de Letras não
se expôs tanto à militância pela abolição
da escravatura. Mas não faltam, na sua obra, registros
e reflexões a respeito do assunto.
Lima
Barreto (1881-1922) foi mais a fundo na denúncia
das injustiças sociais e do racismo, e tal postura
afirmativa custou-lhe caro. Sua obra foi rejeitada pela
crítica da época, tendo o devido reconhecimento
ocorrido somente após sua morte. Carioca, jornalista,
Lima Barreto destaca-se com obras como Recordações
do Escrivão Isaías Caminha, O triste fim
de Policarpo Quaresma e Clara dos Anjos. Faleceu jovem,
aos 46 anos, mas, com seus escritos, enfrentou o racismo
de frente e contribuiu para uma prosa literária
despojada que o Modernismo aproveitou para implementar
em seu propósito iconoclasta.
Do
encontro das escolas européias com as culturas
e vivências africanas no Brasil, emerge um novo
olhar literário fortemente marcado pelo sofrimento
advindo da escravidão e do racismo, como também
pelo sentido épico da luta quilombola. Os escritores
citados, para fugir da opressão, criaram mecanismos
próprios de resistir no campo das idéias
e fazer chegar aos leitores a sua visão-do-mundo:
o sarcasmo de Luiz Gama, a dramaticidade de Cruz e Sousa,
a técnica de Machado de Assis e o protesto veemente
de Lima Barreto. Quatro autores e suas distintas características
de ver e atuar na sociedade que enriqueceram, ao longo
do tempo, expressão dos afro-brasileiros por meio
da literatura.
Os
Cadernos Negros
Em meados de 1978, surgem os Cadernos Negros, na senda
daqueles autores e também de tantos outros, como
Lino Guedes e Solano Trindade. Destacam-se as atuações
de Cuti (Luiz Silva, na foto) e Hugo Ferreira, cabendo
a este último a idéia do título da
série Cadernos Negros e ao primeiro a execução
do projeto durante seus cinco primeiros anos.
Mais tarde, em 1980, surge o Quilombhoje,
como resultado de reuniões informais de poetas.
Com o propósito de discutir temas ligados à
negritude e literatura, o grupo passou também a
realizar as Rodas de Poemas - forma coletiva de declamação,
com o emprego de canto e instrumentos musicais - reverenciando
personalidades negras como Pixinguinha, Luiz Gama, Agostinho
Neto entre outros. Só em 1982, os Cadernos Negros
ficaram sob responsabilidade do agora Quilombhoje Literatura,
dando contornos institucionais à luta dos autores
afro-brasileiros.
Os
gêneros literários sempre se revezaram -
ora poemas, ora contos - mantendo a linha de cooperação
e participação dos autores e, por vezes,
de orientação e apoio na produção
e estímulo à leitura destes trabalhos. Neste
ano, os Cadernos Negros chegam ao trigésimo número
da série, em 30 anos de história, e há
a promessa de um evento comemorativo deste feito.
Negroesia
O lançamento de Negroesia, décima obra de
Cuti (Luiz Silva) foi mais uma etapa dessa história.
Antologia poética que reúne uma seleção
de poemas e textos do autor, já publicados em suas
outras obras e na coleção Cadernos Negros,
acrescidos de onze poemas inéditos, Negroesia apresenta
também um recital homônimo, com direção
de Beta Nunes, autora e diretora da peça A Mulher
do Chapéu (2006).
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